Pois é bom que saibais que nenhum fornicário ou impuro ou avarento - que é um idólatra - tem herança no Reino de Cristo e de Deus. (Efésios, 5: 5)
Pois é bom que saibais; pelo que depreendemos a tradução aqui não foi muito feliz. A expressão grega literalmente traduzida diz “sabei sabendo”, “sabei por experiência contínua[1]”. Trata-se de uma forma hebraica de se expressar. A tradução de Almeida neste passo nos parece mais fiel: “Porque bem sabeis isto”.
O sentido é “sabeis perfeitamente bem, por vosso próprio conhecimento[2]”.
Não é desejável que o cristão saiba de seus compromissos morais, isto é dever. Ele sabe pelo próprio conhecimento quais são suas responsabilidades, por isso insistimos que devemos assumi-las, esta é a ideia passada por Paulo.
Se assim já era àquele tempo em que o ensinamento de Jesus encontrava-se velado pelo próprio estilo da literatura, imaginemos como não deve ser hoje, quando temos a doutrina espírita a nos esclarecer. Nossa responsabilidade acha-se ampliada, a Codificação Kardequiana não deixa dúvidas, tudo tem sido dito claramente.
Estamos naqueles tempos preditos por Jesus:
O que vos digo em trevas, dizei-o em luz; e o que escutais ao ouvido, pregai- o sobre os telhados.[3]
…que nenhum fornicário ou impuro ou avarento; estas três expressões já foram comentadas no terceiro versículo deste mesmo capítulo algumas páginas atrás.
O retorno delas aqui é importante para percebermos a didática do autor. Lá ele situa elas no plano mental, o que poderíamos perceber como o pecado pelo pensamento, é onde inicia a ação negativa. No versículo seguinte temos as palavras como indutoras do erro; nele o pensamento se converteu em palavras, o que é o segundo passo de materialização do erro. Aqui, fornicário, impuro e avarento, já expressam pessoas que praticam continuamente tais atitudes imorais. É assim a representação da ação propriamente dita, do aprofundamento do erro, que se não controlado no início sempre traz danos maiores com o agravamento do processo.
Deste modo aprendemos a sermos vigilantes e evitar a ação contrária ao bem por menor que seja, mesmo num plano de grande sutileza. Se dermos espaço para os adversários do Cristo, por mínimo que seja, eles penetram, e devido ao nosso comprometimento moral podemos nos perder por não termos defesa psíquica em determinadas áreas para enfrentarmos a situação.
Assim, o que era projeto vira realização e nós nos comprometemos cada vez mais se não tivermos cuidado. Mais uma vez lembramos Emmanuel:
…hoje é um pingo de sombra, amanhã linha firme, para, depois, fazer-se um painel vigoroso.[4]
...que é um idólatra… A analogia do adultério e dos desvios sexuais com a idolatria é marca característica da literatura veterotestamentária.
Podemos ver aqui o desvio da Lei de Deus como um vício que tornou-se arraigado no psiquismo da criatura de tal forma que ela passa a cultivar em seu coração ídolos outros sempre ligados ao fator material e à transitoriedade.
Assim, temos o culto à beleza e às formas, ao poder, ao dinheiro, ao sexo, tudo isto gerando impurezas e cobiças que aprofundam o Espírito em suas quedas morais.
É importante aqui analisarmos a palavra herança. Ela indica uma filiação, entretanto, em relação à filiação divina sob o ponto de vista moral trata-se de uma conquista. O Espírito tinha-a por natural, todavia, por escolher o caminho em que passou pela fieira do mal[5] perdeu-a, assim faz-se preciso reconquistá-la. Portanto não é gratuita é fruto de esforço e trabalho.
Deste modo, ninguém desviado da Lei Divina herdará o Reino de Cristo e de Deus. É preciso haver conversão para que se chegue a ele e possa adentrá-lo.
Conversão significa reconhecer o erro anterior e se desculpar com atitudes renovadas; é mudar valores, sentimentos... Aquele que erra, pede perdão, volta errar, e isso se repete continuamente, ainda não se acha pronto para este Reino que é de paz, harmonia, saúde e felicidade completa.
Importa reconhecer ainda, que este Reino é um estado espiritual de pleno regozijo e harmonia com Deus, o que pode ser alcançado, apesar de que raramente assim se dá, aqui mesmo, no plano em que nos situamos, basta para isso viver a Lei de forma integral, com espontaneidade.
Temos grande dificuldade de compreender isto devido a nossa psicologia inferior e materialista em que não conseguimos dissociar harmonia física de espiritual. Segundo nos orientam os Espíritos é plenamente possível realizarmo-nos espiritualmente sem a devida realização material e física. E isto é o que habitualmente acontece. Vemos nos grandes avatares seres que muito sofrem, entretanto isto só acontece fisicamente, já que em espírito estão plenamente integrados em Deus.
(Aguarde, para breve O Evangelho de Paulo, novo livro da Série Evangelho)
Notas:
[1] (CHAMPLIN 1995)
[2] Abbott, citado por Champlin, Op. Cit.
[3] Mateus, 10: 27
[4] (XAVIER/Emmanuel [Espírito], Pensamento e Vida, 9ª ed. 1991), cap.27
[5] Cf. (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), Q. 120
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